“Comece. E vai aprendendo enquanto faz”
Entrevista com Rafaela Cappai, fundadora da Espaçonave para o blog da Pitaco Criativo
Sempre tem aquele momento em que a gente se pega buscando o sentido da vida e do que nos faz ser feliz. Foi em um dia como esse que eu conheci a história e os talentos da Rafa Cappai.
Comunicadora, artista, bailarina. Rafa é daquelas que tudo o que se propõe a fazer, faz bem e com paixão. Com mais de 15 anos de experiência no mercado criativo, possui mestrado em Empreendedorismo Cultural e Criativo, na Goldsmiths University of London, em Londres/Inglaterra, além da graduação em Comunicação (PUC Minas/2001) e pós graduação em Marketing (Newton Paiva/2008). Recebeu o Prêmio de Economia Criativa pela Secretaria da Economia Criativa/ Ministério da Cultura por sua metodologia para formação de competências criativas e lançou o livro “Criativo e Empreendedor, sim senhor”.

Atualmente, se dedica à Espaçonave, a frente de oficinas, processos de coaching e consultoria para pequenos profissionais e negócios criativos. E topou dar seus pitacos em uma entrevista cheia de pérolas e conceitos interessantes aqui:
O que é criatividade para você?
A criatividade tem a ver com autenticidade. Buscar uma via de expressão única no mundo e entender o que é próprio seu, seu jeito de fazer as coisas. Significa não seguir padrões e se expressar colocando a sua impressão única no mundo. A criatividade também tem várias formas de aplicação, como a criatividade aplicada de um artista, de um inovador, a criatividade aplicada para resolver um problema de uma maneira diferente. Pra mim, criatividade é o que construiu o mundo até hoje. É o que dá forma ao mundo. Ela está na cadeira que a gente senta, na mesa, na caneta, na obra de arte, dos automóveis. Enfim, tudo o que está a nossa volta em algum momento precisou de alguém criativo para se transformar em realidade.
Por que escolheu esse mercado?
Costumo dizer que não o escolhi, mas fui escolhida por ele. Desde criança que estou no mundo das artes. Eu não escolhi isso, foi natural. Comecei a dançar muito cedo e depois a interpretar e, naturalmente, fui carregada profissionalmente para essa realidade. Aos 14 anos de idade, eu me profissionalizei como bailarina de carteira assinada e algum tempo depois como atriz. É uma escolha do coração, mas do que uma escolha racional. É claro que depois, aos poucos, eu fui estudando mais e ocupando o meu espaço para falar desse universo. Mas, ele só faz sentido para mim, porque faz sentido pro meu coração.
O que, de fato, traz cor para a minha vida, é pensar e falar sobre assuntos ligados à criatividade, empreendedorismo ou desenvolvimento pessoal.
Para você, qualquer um pode ser criativo?
Corrigindo, qualquer um não pode ser criativo, mas qualquer um é criativo. Todos nós temos essa habilidade de fábrica, “imprintada” no nosso DNA. O que acontece é que deixamos de ser ao longo da vida. Deixamos de operar a partir de um paradigma criativo e vai passando a operar a partir de um jeito que nos dito para fazer e, assim, esquecemos que existem milhões de outras formas possíveis. A gente deixa de perguntar: “Por que, não? E se? E se fosse assim como seria”. A criatividade é nossa. É comum do ser humano. É o que nos diferencia dos demais seres vivos. É a capacidade de pensar criativamente e de imaginar.
Que dicas você daria para quem quer melhorar seu processo criativo?
Mergulhe em seu processo criativo. Para quem quer melhorar seu processo criativo, é preciso mergulhar nisso. É tentar priorizar a criatividade no seu dia-a-dia, criando um jeito de trabalhar, um espaço de trabalho que seja seu para entender como você funciona. Para entender o que funciona melhor para você, quais são as estratégias criativas ou as formas de operar que fazem sentido para você, como seu cérebro gosta de trabalhar.
Defina um tempo para criar. Se você ficar esperando o melhor momento para criar, você não cria. Se você ficar esperando alguém te dizer para criar, você não cria. Precisa ser um processo muito próprio e único, da gente. Ninguém vai injetar criatividade na gente, se a gente mesmo não mostrar para o universo que é isso que a gente quer.
Tenha dedicação criativa. É estudar criatividade, é estudar seu próprio trabalho. Refazer coisas, repetir – e os artistas sabem muito bem disso, principalmente, os artistas performáticos – atores, músicos, cantores, sabem que ao repetir é possível melhor a obra. É aplicar na própria vida, no próprio trabalho, uma dedicação criativa. Entender que a criatividade está em nós, mas ela não brota instantaneamente. Ela precisa de trabalho.
Aprenda que não existe receita mágica. A primeira coisa, jogue fora esse mito de que a criatividade é alguma coisa louca que vai pintar na sua vida de uma hora para outra. Não! Ela vai pintar se você convidar.
Ela precisa de processo, ela precisa de rotina, ela precisa de entrega da sua parte para poder acontecer.
Qual a característica imprescindível de um criativo?
São várias, mas uma que gostaria de destacar é a curiosidade. Querer saber mais sobre as coisas e se interessar por tudo. Deixar se contaminar por tudo que está a nossa volta. É querer entender como as coisas são feitas, querer conhecer todo mundo, desde um menino de 10 anos de idade que você conheceu na rua a um CEO que você teve a oportunidade de assistir uma palestra. É alguém que se interessa pelo que é humano. É alguém que está em busca de aprender sobre ser humano.
O que você faz quando não consegue criar e inovar?
Eu me afasto. Eu saio de cena. Paro de tentar e dou uma pausa. Isso pode ser, tanto no dia-a-dia mesmo, eu paro tudo o que estou fazendo e vou assistir um filme à tarde. Ou pode ser, na minha rotina: eu tiro uns cinco dias para não fazer nada para tirar umas férias.
O processo de se afastar do problema e se distanciar do objeto é o que me faz recuperar o fôlego e conseguir fazer voltar a funcionar.
Quando pinta essa secura, pra mim, a melhor forma é parar de tentar e simplesmente entregar e esperar as conexões neurais se instaurarem, e aí sim eu conseguir ver aquilo sob um novo ponto de vista, já que eu vou estar afastada do problema.
Como você vê o crescimento da economia criativa no Brasil?
Eu vejo o crescimento da economia criativa como um dos borbulhares da nova economia, ou das novas economias que estão sendo criadas por pessoas tentando fazer diferente. Tentando criar formas de vender diferente, tentando prestar serviços e produtos diferente, que vão na contramão do que a economia tradicional pregava até então. A economia criativa é um dos braços dessa transição que a gente está vivenciando. Para mim, é incrível que ela esteja crescendo. Que mais gente esteja conhecendo esse conceito e que isso esteja se tornando possível para mais pessoas. Tem gente simplesmente fazendo acontecer, sem nem saber que isso existe. Então, pra mim, é muito legal. Mas, acho ainda mais incrível saber que as pessoas estão dando o seu jeito. Se é economia criativa ou não, não sei. O que me importa é que estão colocando seus talentos em uso, encontrando novas formas de ganhar dinheiro e encontrar um estilo de vida que seja mais compatível com elas são.
Qual o seu PITACO para quem está entrando na área agora?
Meu pitaco para quem está entrando na área agora, é COMEÇAR! É começar do jeito que dá, investir em um projeto paralelo. É criar um projeto, mesmo que você tenha um emprego, porque vai começar a te estimular criativamente. É abrir um perfil em uma rede social para começar a compartilhar o que você tem. Meu mais precioso pitaco – que eu demorei para aprender – foi exatamente esse: Não esperar estar pronto, exatamente entendendo quem você, qual a sua identidade enquanto criativo quais as possibilidades do que você faz como negócio, como rentabilidade para começar.
Começa antes, vai se dedicando a isso, vai compartilhando com as pessoas e vai aprendendo enquanto faz.
Conheça mais sobre o trabalho da Rafa, a Espaçonave, adquira seu livro “Criativo e Empreendedor, sim senhor”.